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CARTA ABERTA: PELO DIREITO À DEMOCRACIA E O RESPEITO À MEMÓRIA

Existem dois projetos de governo, e nossa memória nos ajuda a escolher qual queremos. Memória de um Brasil que voltou ao Mapa da Fome. Memória de uma pandemia que poderia ter sido enfrentada de outra maneira, mas que foi marcada pelo negacionismo, pela negligência e pelo desprezo à ciência, enquanto mais de 700 mil brasileiros perderam a vida. Memória dos discursos de ódio contra mulheres, pessoas negras, indígenas e pessoas LGBTQIA+. Memória dos ataques à democracia, das ameaças às instituições e da tentativa de golpe de Estado.

 

Também temos memória do que aconteceu com os povos indígenas e com a floresta. De um governo que terminou sem demarcar e homologar nenhuma terra indígena e sem titular nenhum quilombo; enfraqueceu os órgãos de fiscalização ambiental, desmontou políticas públicas e abriu ainda mais espaço para invasores, garimpeiros e madeireiros ilegais. Temos memória de um período em que defender os territórios significava também enfrentar o abandono, a violência e a impunidade.

 

Não esquecemos Ari Uru-Eu-Wau-Wau, Bruno Pereira, Dom Phillips, Paulino Guajajara e tantas outras pessoas que tiveram suas vidas atravessadas pela violência contra quem protege a floresta e defende os direitos dos povos indígenas. Não são apenas nomes que repetimos. São vidas, histórias, famílias, lutas interrompidas e ausências que continuam presentes. Cada uma dessas perdas nos lembra do preço que se paga quando a proteção dos territórios deixa de ser prioridade e quando aqueles que ameaçam a vida encontram espaço para agir.

 

É por isso que a memória importa. Porque lembrar não é permanecer preso ao passado: é reconhecer o que aconteceu, dar nome às responsabilidades e impedir que a história seja contada como se nada disso tivesse existido. É não permitir que a dor seja apagada, que as violações sejam naturalizadas ou que a violência volte a ser tratada como um caminho aceitável para governar.

 

Guardamos na Kanindé a memória viva desse período. Sabemos o que significou atravessar aquele momento, manter nossa atuação e continuar defendendo os povos indígenas, os territórios e a floresta em meio ao desmonte das políticas socioambientais e a um ambiente de hostilidade contra quem denunciava as violações. Sabemos o que foi seguir lutando quando os espaços de diálogo se estreitaram e as ameaças àqueles que estavam na linha de frente se intensificaram. Nossa história é feita de resistência, mas também da lembrança de tudo aquilo que jamais deveria ter acontecido.

 

É dessa memória que nasce o nosso posicionamento. Não por esquecimento das contradições da política brasileira, nem por acreditar que tudo está resolvido, mas porque sabemos reconhecer os riscos que determinados projetos representam para a democracia, para os povos indígenas e para o futuro da Amazônia. Não queremos voltar a um tempo em que a destruição era incentivada, os direitos eram atacados e a vida de quem defendia os territórios parecia valer cada vez menos.

 

Por isso, declaramos nosso apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Fazemos essa escolha diante da necessidade de impedir o retorno de um projeto de extrema direita que colocou em risco direitos, vidas e conquistas históricas. Fazemos essa escolha conscientes de que a democracia precisa ser não apenas defendida, mas fortalecida com políticas públicas, participação social e compromisso efetivo com os direitos dos povos indígenas. Convidamos você a construir e defender essa democracia conosco. 

 

Seguiremos cobrando do governo federal o cumprimento de suas responsabilidades históricas. Queremos avanços concretos nas demarcações de terras indígenas, titulação de quilombos e criação de novos assentamentos; proteção efetiva aos povos indígenas isolados e de recente contato e o fortalecimento das instituições responsáveis pela defesa dos territórios, como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Além disso, cobraremos o fortalecimento das Universidades e Institutos Federais. Defenderemos políticas públicas que reconheçam os saberes, os direitos e o protagonismo dos povos indígenas, garantindo condições para que seus modos de vida, suas culturas e seus territórios sejam respeitados.

 

Sabemos que essas conquistas exigem luta, mobilização e cobrança permanente. E sabemos, também, que é apenas em um ambiente democrático, no qual a sociedade civil tem liberdade para se manifestar, denunciar violações e exigir respostas do poder público, que podemos seguir lutando por esses direitos. Defender a democracia é, também, defender a possibilidade de continuar cobrando, denunciando e construindo caminhos para que a justiça socioambiental se torne realidade.

 

Porque a memória não termina na lembrança de quem perdemos. Ela também vive nas lutas que essas pessoas ajudaram a construir, nos territórios que continuam de pé, nas novas gerações que assumem a defesa da floresta e na coragem de seguir exigindo justiça. Lembrar é manter vivos os compromissos que a violência tentou interromper. É transformar a história em aprendizado coletivo.

 

A Kanindé se posiciona porque tem memória. Memória de quem partiu, de quem resistiu e de quem continua lutando! E é com essa memória, com a responsabilidade de nosso passado e com o compromisso com as gerações que virão que fazemos nossa escolha: pela democracia, pelos direitos dos povos indígenas, pela proteção dos territórios e por um futuro em que a história não se repita.

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Escritório

Rua Dom Pedro II, 1892 – Sala 07

Nossa Senhora das Graças

Porto Velho – Rondônia – Brasil

CEP 76804-116

Centro de Cultura e Formação Kanindé

Área Estrada da Areia Branca, S/N Km14, Área rural de Porto Velho CEP 76834-899

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(69) 3229-2826

A Kanindé é filiada à rede GTA e ao FBOMS.

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