Entre os dias 19 e 21 de março, a Terra Indígena Igarapé Lourdes, localizada em Rondônia, foi palco do 5º Encontro do Movimento da Juventude Indígena de Rondônia (MJIR). Realizado na aldeia Ikolen, do povo Gavião, o evento reuniu mais de 100 jovens representantes de 26 povos indígenas dos estados de Rondônia, sul do Amazonas e noroeste de Mato Grosso.
Com o tema “Juventude, democracia e clima”, o encontro promoveu uma programação voltada ao debate político, à formação e ao fortalecimento dos jovens membros do movimento. A abertura foi marcada por apresentações culturais dos povos Ikolen Gavião e Karo Arara, anfitriões do território, reafirmando a importância da cultura como elemento central de resistência e identidade.
Ao longo dos três dias, rodas de conversa e mesas de debate abordaram temas como eleições, clima, conjuntura política e os impactos de decisões do Governo Federal e do Congresso Nacional sobre os direitos indígenas. Um dos destaques foi a participação de pré-candidatos indígenas do estado, que dialogaram com a juventude sobre representatividade e participação política.
A coordenadora do movimento, Kin Suruí, ressaltou a importância da articulação política no contexto eleitoral. “Estamos reunidos com jovens de diferentes povos, debatendo clima, saúde e eleições. Esse encontro é fundamental para que possamos nos organizar, fortalecer nossas pautas e votar de forma consciente”, afirmou.
No segundo dia, os participantes se organizaram em grupos de trabalho para analisar os principais desafios enfrentados em seus territórios, como ameaças ambientais, ausência de políticas públicas e violações de direitos. A partir dessas discussões, os jovens elaboraram propostas e estratégias de atuação coletiva, reforçando o papel do Movimento da Juventude Indígena de Rondônia na incidência política.
Ainda na programação, uma roda de conversa sobre mineração em terras indígenas reuniu jovens e professores da Universidade Federal de Rondônia (UNIR/Ji-Paraná) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz/Manaus), aprofundando o debate sobre os impactos dessa atividade nos territórios e na vida dos povos indígenas de Rondônia.
Nesse contexto, a vice-coordenadora do MJIR, Marciely Tupari, destacou a importância da participação ativa da juventude nos debates sobre mineração e seus impactos. Segundo ela, é fundamental que os jovens acompanhem de perto essas discussões. “Sabemos que o impacto será sobre nossos territórios, corpos e vidas”, afirma.
Durante as noites do primeiro e do segundo dia, a programação do encontro também se consolidou como um espaço de reflexão entre os participantes. No primeiro dia, os jovens assistiram ao documentário A Queda do Céu, inspirado na obra do xamã yanomami Davi Kopenawa, que apresenta a cosmologia Yanomami e denuncia os impactos do garimpo ilegal, das epidemias e da exploração sobre os territórios indígenas, ao mesmo tempo em que reafirma o papel dos povos originários na proteção do equilíbrio do mundo.
Já na segunda noite, foi exibido o documentário Yanuni, que acompanha a trajetória da liderança indígena Juma Xipaia na linha de frente da defesa territorial e da justiça climática, evidenciando os desafios, ameaças e o custo pessoal enfrentado por quem luta pela preservação da Amazônia. As exibições contribuíram para ampliar o debate entre os jovens, conectando suas realidades às lutas de outros povos e fortalecendo a resistência e união na defesa dos territórios e dos direitos indígenas.
A presença de representantes do Comitê Chico Mendes e do Coletivo Varadouro também fortaleceu o encontro, evidenciando a conexão entre as lutas da juventude indígena e da juventude extrativista acreana. Vindos de um estado vizinho, os jovens compartilharam experiências e desafios comuns na defesa dos territórios e dos modos de vida tradicionais, reafirmando que essas lutas caminham juntas e reforçando a aliança das juventudes em defesa da vida.
O último dia do encontro foi dedicado a atividades de integração e valorização das iniciativas locais. Pela manhã, os participantes visitaram a Cooperativa Sebirop de Biodiversidade, ligada ao etnoturismo do povo Ikolen Gavião. À tarde, conheceram o espaço de etnoturismo Tê Xaragá, do povo Karo Arara. Essas experiências evidenciam alternativas sustentáveis de geração de renda nos territórios.
Como encaminhamento final, os jovens elaboraram e aprovaram uma carta do encontro. O documento reafirma a posição contrária a qualquer retrocesso nos direitos indígenas, especialmente no que diz respeito à demarcação de terras, e denuncia o aumento das ameaças aos territórios, como a violência e a exploração ilegal dos territórios.
A carta também reforça que os direitos dos povos indígenas são ancestrais e não podem ser negociados. “São direitos inalienáveis, indisponíveis e imprescritíveis”, afirmam os jovens no documento, destacando que não aceitarão retrocessos e seguirão mobilizados na defesa de seus territórios, culturas e modos de vida.
O encontro contou com o apoio da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, da Fundação Gordon & Betty Moore e do Instituto Clima e Sociedade, além da parceria da Associação Indígena Assiza, do Distrito Sanitário Especial Indígena de Porto Velho e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas, por meio da Coordenação Regional de Ji-Paraná.
